O que nós proclamamos agora, com o Salmo 17, é na verdade, como uma declaração de amor que nós fazemos ao Senhor, mas ao mesmo tempo é também, uma declaração da nossa dependência a Ele. Todos nós, hoje, com essa palavra, nos reconhecemos diante do Senhor, necessitados dEle de tal maneira que refugiados no Senhor, nós experimentemos aquilo que Paulo escreve aos Romanos: “O que nos separará do amor de Deus? Fogo, tribulação, perigo, nudez, espada? Em tudo isso, somos mais que vencedores, graças Àquele que nos amou primeiro.” (Rm 8,35ss) Na verdade, o que nós rezávamos, dizendo que o Senhor é a nossa força, é nossa rocha, nosso refúgio, nossa salvação! é Ele que nos abriga, é a certeza que nós hoje temos e dizemos para nós mesmos, de que precisamos dEle e queremos contar com Ele todos os momentos da nossa vida. E isso só é possível porque Ele nos amou primeiro.
É curioso, que ao escutarmos a liturgia da palavra, nesse final de semana, nós talvez digamos, imediatamente, que é a liturgia dos dois principais mandamentos, os mandamentos mais importantes. Mas talvez nos esquecêssemos do primeiro, que é anterior aos que Jesus apresentou no evangelho. O primeiro e mais central mandamento, pra nós, é, na verdade, tomar consciência de que Deus nos ama. Nós, às vezes queremos amar o outro, queremos amar a nós mesmos,
queremos amar a Deus e nos esquecemos de experimentar o amor de Deus por nós, de nos lembrarmos de que se nós hoje estamos aqui, é porque Ele nos amou, e se continuamos aqui, é porque Ele continua nos amando e nos sustentando no Seu amor.
Mas para que isso aconteça, nós precisamos então acolher o que Moisés dizia na primeira leitura (Dt 6,2-6). Quando hoje nós ouvimos esse trecho, do livro do Deuteronômio, talvez não tenhamos claro diante de nós, o que era para o povo de Israel viver a Torá. O povo de Israel não apenas precisava guardar e viver 10 mandamentos, como nós aprendemos na nossa catequese, o povo de Israel precisava viver 613 preceitos. Não só o povo não daria conta de viver, como não conseguiria nem saber todos eles.
Por isso, Moisés, em nome de Deus, mostra pro povo o que é o essencial O mais importante é, exatamente, amar esse Deus sobre todas as coisas, mas não amá-lO da boca pra fora, não amá-lO, por exemplo, quando tudo vai bem, mas amá-lO com todas as nossas forças, amá-lO com tudo aquilo que somos e temos.
E para que isso aconteça, nós precisamos acolher o que Moisés acabou de nos dizer: “Ouve, Israel, e cuida de os pôr em prática”. E continua Moisés, “Ouve Israel, o Senhor nosso Deus é o único senhor.” Para que isso aconteça, meus irmãos, nós precisamos aprender a escutar o Senhor! E se tem algo cada vez mais difícil, para nós, hoje, é escutar o Senhor. Nós estamos envolvidos em tantos barulhos, em tantas coisas que nos distraem, tiram o nosso foco, que de fato, é difícil escutar o Senhor, é difícil escutar um Senhor que nos fala como falou a Elias (1Rs 19,12), na brisa suave…. é difícil escutar o Senhor, quando nós estamos falando demais, quando nós fazemos barulho demais, quando nós, por exemplo, entramos na igreja, imediatamente, nós temos o que falar com Deus e começamos a falar, mas nem sempre entramos na igreja com a disposição de escutá-lO! Até poderíamos perguntar a nós mesmos, ‘o que Deus está nos falando? o que Ele quer nos falar? Só escutando o Senhor vamos aprender a escutar e a escutar os outros.
Nós não sabemos mais escutar… nós sabemos falar… somos educados assim desde pequenos, nossos pais faziam conosco o mesmo que faziam com um papagaio: ‘fala papai, repetimos, fala mamãe, repetimos; agora fala vovó, repetíamos, e faziam festa porque nós estávamos falando! Quem de nós, quando era pequeno, ouvia os nossos pais dizendo, ‘agora você vai ficar quietinho, pra ouvir o que eu estou dizendo!’
E com isso, meus irmãos, nós vamos crescendo, não sabemos mais escutar, não sabemos escutar a nós mesmos, não sabemos escutar os outros, não sabemos escutar muito menos a Deus. A liturgia de hoje nos convida a um silenciar externo e interno, para escutar o Senhor que nos dirige Sua palavra, e nos convida hoje a reconhecê-lO como o centro, como o Senhor, e não colocar nada nem ninguém no lugar que é dEle, na nossa vida. O lugar dEle é o lugar da pedra angular, e nada pode entrar nesse lugar, porque quando nós vamos colocando coisas e pessoas nesse lugar, à medida que as perdemos vamos nos sentindo desamparados e perdidos, porque estamos sem a nossa base. Agora, quando é o Senhor nossa base podemos enfrentar de tudo um pouco, ventos contrários sempre teremos, mas continuamos solidificados naquele que é o alicerce da nossa vida.
Que possamos hoje pedir ao Senhor a graça de experimentarmos, profundamente, o Seu amor, para que assim, nós possamos responder amor com amor. Possamos amá-lO acima de tudo, possamos também amar uns aos outros, não um amor qualquer, amor de poesias, de novelas e de músicas, muito menos um amor de redes sociais, mas um amor concreto, que se dá no dia a dia e, sobretudo, que sejamos capazes de amar os outros como a nós mesmos. Talvez um desafio para nós, hoje, seja até nos amarmos. Às vezes a gente quer amar o outro mas não sabe se amar, é preciso se amar, é preciso se cuidar, para que a gente ame também o outro, para que a gente cuide também do outro, essa ideia de uma entrega total da vida, quando nós não temos vida para entregar, não tem sentido. O Senhor pede de nós hoje, a capacidade de amar a nós mesmos, para que possamos também amar os outros.
Que o Espirito de Deus, aquele a que chamamos o amor entre o Pai e o Filho, seja derramado sobre nós nessa eucaristia, e nos ajude a experimentar, no mais íntimo de nós, um Deus que nos ama, e nos ama, apaixonadamente, e que assim, nos faz capazes também, de amá-lO, de nos amar e de amar uns aos outros.
Eu vos amo, ó Senhor, porque sois a minha força.
Arte: Thiago Maia