PADRE DOUGLAS: “Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: de sermos chamados filhos de Deus! E nós o somos.” (1 Jo 3,1)

Celebrando hoje a solenidade de Todos os Santos, poderíamos dizer que São João, através dessa palavra que acabamos de escutar, renova, em todos nós, a certeza de uma graça que recebemos: a graça de sermos filhos e filhas de Deus.  Nós temos um Deus que é Pai, que nos ama, que cuida de nós e que deseja que nós sejamos como Ele, que sejamos santos, porque Ele é Santo.

Na verdade, quando nós, hoje, celebramos a santidade de tantos irmãos e irmãs que nos precederam no Reino dos céus, estamos celebrando a santidade de Deus, santidade essa, que se manifesta em nossa vida e, por isso, a primeira coisa que nós precisamos hoje, fazer, nesta festa, é reconhecer que a santidade não é a meta para um povo escolhido. A santidade não é algo completamente diferente da nossa vida ordinária, da nossa vida de cada dia.  Santidade não é outra coisa, senão viver como filho e filha de Deus, no ordinário da nossa vida, no hoje da nossa vida. Tanto é assim, que quando contemplamos, na história da Igreja, tantos homens e mulheres que viveram a santidade, viveram como homens e mulheres que, nós diríamos, comuns.

O Papa Francisco, inclusive, usa uma imagem, são os santos, ao pé da porta; homens e mulheres que conhecemos, que conviveram conosco, mas que viveram como filhos e filhas de Deus. A liturgia de hoje quer, na verdade, nos conscientizar que somos filhos de Deus, que fomos agraciados com esse dom.

Mas ao mesmo tempo, quer também nos motivar a fazer esse caminho, e a reconhecer que só nesse caminho, só na vivência dessa vocação à santidade é que nós experimentaremos a felicidade que tanto buscamos. Quando hoje, contemplamos essa multidão de homens e mulheres que já se encontram junto de Deus, reconhecemos aquilo de que o autor da Carta aos Hebreus (Hb 12,1) nos lembra, quando diz que estamos caminhando, correndo ao encontro do Senhor, mas não caminhamos, não corremos sozinhos. Ao contrário, existe uma nuvem de testemunhas de homens e mulheres que já caminharam antes de nós. Que passaram por dificuldades como nós, que viveram na graça de Deus, como nós.

Nós, meus irmãos, não estamos fazendo um caminho solitário. Ao contrário, cremos na comunhão dos santos, cremos que estamos unidos, que estamos em comunhão com aqueles que, junto de Deus, agora intercedem por nós, aqueles que nos aguardam, para que um dia experimentemos aquilo que São João (1Jo 3,1-3) dizia, aquilo que é muito maior, muito melhor, e que Deus reservou para cada um de nós. Tem algo a mais para nós, tem algo melhor para nós, quando na nossa vida, nós experimentamos coisas boas, coisas que nos realizam. Precisamos dizer para nós mesmos: ainda tem algo melhor, ainda tem algo maior, que Deus reservou para cada um de nós, mas a liturgia de hoje também nos oferece essa bela narrativa do livro do Apocalipse (Ap 7,2-4.9-14), quando São João contempla uma multidão incontável de homens e mulheres, homens e mulheres de todas as raças, de todas as línguas, de todos os povos, lembrando que o céu não é de um grupo predestinado.

O céu não é para um povo. Não é para uma raça, o céu é para toda a humanidade. Deus fez o céu para nós. Nós somos chamados para o céu, essa multidão incontável está diante do trono do cordeiro. Se olharmos bem, meus irmãos, vemos que estamos agora, fazendo a experiência do céu, veremos que agora, neste exato momento, eu e você estamos, exatamente, como São João contemplava, na sua visão. Estamos também nós, diante do trono do cordeiro, do altar do cordeiro, do Senhor da nossa vida.

E essa multidão, como eu e você, fomos marcados na fronte com o sinal da nossa fé. Se prestarmos bem atenção, o que nós ouvimos no Apocalipse de São João, é quase que um relato da celebração do nosso Batismo, quando nós também fomos, naquele dia, marcados na nossa fronte, marcados com o sinal do Cristo Senhor, nosso mestre. E também naquele dia, nós recebíamos a veste batismal, a veste dos filhos de Deus; e a multidão que São João contempla está trajando vestes brancas, mas tem um detalhe: essa multidão carrega a palma na mão, sinal do martírio, sinal da tribulação pela qual passaram, mas é importante que essa palavra nos ajude, também hoje, a nos consolarmos, para reconhecermos que também nós passamos e passaremos por inúmeras tribulações.

E não pensemos que o nosso tempo talvez seja mais difícil do que os outros. Eu e você só temos esse tempo, eu e você não vivemos no século retrasado, no passado, até vivemos, não adianta nós pensarmos: antigamente era melhor, no século 15, era melhor no 18, era melhor no início da Igreja, era melhor… não sabemos se era melhor, que nós não vivemos lá. Temos um hoje, e é nesse hoje que Deus espera que nós vivamos a santidade, que vivamos como seus filhos. E é nesse hoje, que Deus nos sustenta com a Sua graça e nos oferece, como ouvimos no evangelho (Mt 5,1-12ª), um caminho para percorrer. A santidade se dá numa vida totalmente voltada para o Senhor, numa vida marcada por Sua palavra.

São Mateus narra que Jesus sobe ao Monte e como um novo Moisés, senta-se, abre a boca, e começa a instruir, a ensinar os seus discípulos, como se estivesse dizendo: “Você, que quer me seguir… Eu vou agora apresentar a minha proposta. O meu plano. A minha palavra para sua vida! Veja se é isso que você quer! Veja que o que eu tenho a oferecer, é o caminho da bem-aventurança, da felicidade.”

Mas curiosamente, um caminho que eu e você muitas vezes não queremos percorrer. Um caminho que a lógica do mundo não aceitaria, mas é essa palavra que o Senhor nos ofereceu E o que consiste, em que consiste esse caminho, em que consiste seguir Jesus, nos lembrava Ele no evangelho. Bem-aventurados, felizes são aqueles que são pobres em espírito, aflitos, mansos, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os que promovem a paz. Os que são perseguidos por causa da justiça, e também, bem-aventurados e felizes são aqueles que, como Jesus, sofrem injúrias, são perseguidos, são até caluniados por causa de Jesus Cristo. Mas esses experimentarão a alegria verdadeira e exultarão, porque grande será a sua recompensa nos céus.

Que nós hoje tenhamos a coragem de olhar a nossa vida e nos perguntarmos se é essa palavra que orienta os nossos passos, se é essa palavra que nós estamos vivendo. E não permitamos, queridos irmãos e irmãs, que sejamos mais um, numa multidão que segue a Cristo, mas não vive a Sua palavra. Não sejamos nós, cristãos da boca para fora, mas sejamos cristãos de fato, que assumamos na nossa vida a lógica do evangelho, para que assim, verdadeiramente, vivamos como filhos e filhas de Deus, como membros dessa geração dos que procuram o Senhor, desejam o Senhor e querem viver eternamente, com o Senhor da nossa vida.

Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: de sermos chamados filhos de Deus! E nós o somos.

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