Ao escutarmos estas palavras de Jesus, no evangelho de hoje (Jo 18,33b-37), celebrando a solenidade de Cristo Rei do universo, a primeira coisa que somos convidados a fazer, pela liturgia, é tirar dos nossos olhos, da nossa mente, uma visão deturpada, equivocada, do reinado de Jesus Cristo.
A liturgia de hoje nos convida a reconhecê-lO como o centro, como o Senhor da nossa vida, como o rei que nos governa, que nos conduz, que nos orienta todos os dias da nossa vida, e por isso, a liturgia faz com que essa celebração seja vivida, exatamente, na conclusão do ano litúrgico, para reconhecermos que toda a nossa vida caminha para Ele, toda a nossa vida tende para o Senhor.
E ao escutarmos hoje, as leituras da liturgia da palavra, a primeira coisa que chama a nossa atenção, na profecia de Daniel (Dn 7,13-14), é o reconhecimento do profeta de que o Senhor tem um poder que é eterno, e um Reino que não se dissolve. O poder do Senhor não é um poder de tirania, de dominação! Não é um poder de competição com outros, que têm poder neste mundo.
O poder do Senhor está acima de tudo e de todos e, ao mesmo tempo, o profeta nos lembrava que mesmo que tenhamos tantas oposições, mesmo que tenhamos tantos que atacam o Senhor, que atacam o Seu Reino, o Seu Reino permanece de pé, não se dissolve. É uma palavra que nos enche hoje de esperança, porque vemos quanto o Senhor é atacado, quanto o Senhor já foi atacado ao longo da história. E todos que o atacaram? Já se foram… Já passaram tantos reinos que se levantaram contra Ele e contra o Seu Reino, já passaram, já acabaram… Mas o Senhor e o Seu Reino permanecem de pé! É uma palavra que nos ajuda hoje a reconhecer, e mesmo que tenhamos tantas oposições, mesmo que tenhamos tantos ataques ao Reino de Cristo, que o Seu reinado nunca se dissolverá.
Mas ao mesmo tempo, a liturgia nos faz reconhecer também, que no Seu Reino ninguém entra por obrigação. Ninguém está obrigado a fazer parte do Seu Reino! O Seu Reino não é imposto a nós, o Seu Reino é proposto, e fazer parte do Seu Reino é uma graça, é uma graça concedida a todos nós, a todos os homens e mulheres de todos os tempos, de todas as raças, de todas as línguas. Não existe um grupo escolhido, um grupo privilegiado, ao contrário, no Seu Reino todos nós temos lugar, e mais ainda.
No Seu Reino, todos nós permanecemos sempre livres. Poderíamos até dizer que no Seu Reino, todos nós somos chamados a reinar. Quando fazíamos a nossa catequese, aprendíamos que ao sermos batizados, todos nós somos configurados a Cristo, sacerdote, profeta e rei, porque somos livres, e por isso reinamos, por isso reinamos em nossa vida. Quando nós queremos que o Senhor reine sobre nós, não estamos perdendo a nossa liberdade, não estamos vivendo na dinâmica dos escravos. Ao contrário, somos livres, e por isso queremos que Ele reine, por isso queremos que Ele nos governe, que Ele nos conduza. É a expressão clara da nossa liberdade, nós O escolhermos como Rei da nossa vida.
É preciso, meus irmãos, que essa palavra, também hoje, nos ajude a reconhecer, que muitas vezes nós somos tentados a querer reinar na vida dos outros, a querer reinar na vida das nossas famílias, a querer reinar na vida do esposo, da esposa, dos filhos e vivemos uma dinâmica de uma contínua competição e rivalidade. Esquecemo-nos de que na nossa vida, na vida da nossa família, na vida da nossa comunidade, só existe um Rei. Só existe um a reinar, e nenhum outro! Só o Senhor que reina sobre nós.
É preciso superar a tentação, que nos ronda, de dominarmos uns aos outros, de reinarmos na vida dos outros, de nos impormos na vida dos outros, de querermos que os outros quase se coloquem diante de nós, como nossos escravos, como se fossem posses nossas. Somos todos livres e, no Reino de Cristo, teremos sempre homens e mulheres livres de tudo e de todos, a não ser que queiramos que outros reinem em nós.
E no evangelho de hoje (Jo 18,33b-37), o diálogo de Jesus com Pilatos nos faz pensar, primeiramente, que de fato, o Reino de Jesus não é um Reino deste mundo! Não é um reino mundano, não é um reino qualquer, não é um reino que se dá apenas entre nós. É claro que Ele está presente, é claro que Ele se manifesta na nossa história, no nosso tempo, mas é um reino que transcende o tempo! É um reino que transcende a história, que vai além. Nós já estamos experimentando o reino, o reino já está no meio de nós, já se dá entre nós, mas ainda não plenamente! Caminhamos para a sua plenitude, almejamos a plenitude do seu Reino, que um dia todos nós alcançaremos.
Por isso também, meus irmãos, precisamos hoje lembrar que muitas vezes, como nos recorda o Papa Francisco, nós deixamos entrar na nossa vida de Igreja, na nossa vida de cristãos, o que ele chama de mundanismo espiritual (Evangelii Gaudium, n. 93). Vivemos a nossa fé, muitas vezes, de uma maneira mundana, vivemos o que é próprio da nossa fé, com marcas de mundanismo, ronda todos nós e precisamos superar essa mentalidade, precisamos superar uma lógica pagã, que permeia a nossa vida.
E por último, nós ouvimos, no final do evangelho de hoje, o Senhor nos lembrando, claramente, que no seu Reino a mentira não pode estar presente.
Interessante, quando ouvimos essa palavra e às vezes, nos lembramos de tantos irmãos e irmãs que ainda dizem assim: ‘eu só falei uma mentirinha. Só falo mentirinhas…’ como se mentira pudesse ser diminuída ou aumentada! Mentira é sempre mentira, e uma mentira pequena custa pouco para se tornar grande, custa pouco para deixarmos, na nossa vida, a mentira reinar, mentira essa que não é condizente com a nossa pele.
Que o Senhor hoje, nos dê a graça de superarmos, também entre nós, uma vida marcada por falsidades, por mentiras, por hipocrisias, até porque o pai da mentira não é Jesus Cristo, mas o diabo (Jo 8,44).
Que o Senhor nos dê a graça de fazer parte do Seu Reino e de viver na dinâmica do seu Reino todos os dias da nossa vida.
O meu Reino não é deste mundo!
Arte: Thiago Maia