PADRE DOUGLAS: “Maravilhas fez conosco o Senhor, exultemos de alegria…” (Sl 125,3)

      Quando cantamos essas palavras no Salmo 125, talvez  pudéssemos achar que, ou estamos mentindo, ou talvez essa palavra não seja tão de acordo com a nossa vida. Muitos de nós passamos, e talvez estejamos passando por muitas dificuldades, por muitas tribulações, por muitos sofrimentos, de vários tipos.

            Talvez olhemos para trás e pensemos: passamos um ano inteiro de pandemia, estamos terminando um segundo ano, praticamente, de pandemia, com tantas consequências ruins. Será que  podemos dizer, “maravilhas fez conosco o Senhor?”

            O salmista hoje, nos convida a nos retirarmos de uma postura pessimista, de uma postura na qual eu e você, muitas vezes, nos encontramos, sem a capacidade de reconhecer que só o fato de estarmos hoje aqui, ouvindo essa Palavra, é porque o Senhor fez maravilhas na nossa vida. Se estamos hoje aqui, escutando a Sua Palavra, nos alimentando do Seu Corpo, do Seu Sangue, é porque não apenas o Senhor fez maravilhas, mas está fazendo maravilhas entre nós, faz maravilhas por cada um de nós… E mais ainda, o salmista nos ajuda hoje a reconhecer que, mesmo quando nós estamos também semeando, entre lágrimas, mesmo quando estamos em momentos de dores, de tribulações, em momentos de deserto, como o povo de Deus enfrentou, nós temos sempre a certeza de que o Senhor caminha conosco, de que o Senhor está no meio de nós. Por isso, nós podemos dizer que o Senhor fez maravilhas. Não apenas que Ele fez, mas que Ele faz, que Ele fará maravilhas na nossa vida. Que essas palavras do salmista nos ajudem a sair de uma atitude que, muitas vezes é a nossa: de reclamação, de queixas, de um azedume, que parece que vai nos penetrando, e de certa maneira, parece que nós vamos nos contaminando uns aos outros, com uma visão negativa da vida, da realidade e de tantas coisas, que nos cercam.

            Que o salmista hoje nos ajude a olhar a nossa vida, a olhar a vida ao nosso redor, com um olhar de esperança, porque o Senhor vem até nós para iluminar a nossa vida. E é exatamente porque Ele vem, é exatamente porque nós nos encontramos com Ele, que nós precisamos acolher a palavra do profeta Baruc, na primeira leitura (Br 5,1-9), quando lembrava a cidade de Jerusalém, que a vinda do Senhor deveria fazer com que Jerusalém se despisse de toda a veste, de toda a atitude de luto.

            Todos nós sabemos, meus irmãos, que o luto faz parte da nossa vida, muitos de nós convivemos, recentemente, talvez muitos de nós até estejamos vivendo o luto agora. Mas a vinda do Senhor nos convida a não permanecermos no luto, a não permanecermos na dor, na tragédia, na tristeza. O profeta Baruc convida Jerusalém e a todos nós, a sair dessa atitude pessimista que nos marca, e que muitas vezes pesa sobre nós.

            Como é difícil quando nós encontramos certas pessoas, que parece que só vivem nas trevas. Nunca está bom… Nunca está nada bom. Só reclamar… Diante dessas pessoas, meus irmãos, há momentos em que o melhor que nós temos a fazer, é nos distanciarmos. Tem hora que a gente tem que se distanciar de quem só sabe se queixar na vida, porque isso nos contamina, daqui a pouco somos nós. A gente começa a sentar para reclamar junto. A gente começa a sentar para reclamar da vida sem a capacidade de olhar o que há de bom.

            A palavra do profeta nos ajuda a transformar nossa vida de luto, de trevas, de pessimismo, de tristeza, numa vida de alegria, numa vida de esperança, porque o Senhor, vem até nós. Mas a Sua vinda precisa nos encontrar prontos, preparados como João Batista nos anunciava no evangelho de hoje (Lc 3,1-6): “preparai o caminho do Senhor! Endireitai Suas  veredas”. O convite de João Batista é para que cada um de nós se prepare. Para que cada um de nós esteja preparado, minimamente, para acolher o Senhor, para que Ele não nos encontre distraídos, para que Ele não nos encontre em outra atitude, senão  a atitude da feliz expectativa da Sua chegada.

            João Batista é sinal para todos nós também, de que precisamos anunciar a vinda do Senhor em tantos desertos. Porque também nós, como João Batista, precisamos anunciar a vinda do Senhor. Quantas vezes, nós encontramos pessoas tão melancólicas, tão depressivas, que até o Natal causa mais tristeza, causa mais melancolia!

            Nós, homens e mulheres de fé, não podemos nos deixar levar por essas visões. Ao contrário, o Natal, como festa da luz, traz para nós uma esperança, ilumina nossa vida. Mas para que nós celebremos, de fato, um Santo Natal, é preciso que a nossa preparação não seja apenas uma preparação exterior, não seja apenas a preparação do presépio e da árvore que montamos, ou dos presentes que daqui a pouco vamos trocar ou dos nossos almoços e jantares de tantas bebedeiras. Mas que a nossa preparação seja sobretudo interna. Seja preparação do coração, seja preparação da vida. Hoje, a palavra de João Batista nos convida a olhar para nós, nos perguntarmos, o que eu preciso endireitar? O que eu preciso consertar na minha vida, para acolher o Senhor?

            Todos nós, às vezes, olhamos  na nossa casa e percebemos: tem que trocar lâmpada, tem que consertar o ventilador, tem que fazer isso, tenho que fazer aquilo! Mas depois de um tempo, parece que nós vamos nos acostumando. A lâmpada tá queimada e fica, passa um mês… A gente nem se dá conta! O ventilador parou, só quando fizer muito calor a gente vai lembrar de consertar! Às vezes é o mesmo na nossa vida, nós vamos nos acostumando e não nos preparamos e não nos consertamos. E não nos corrigimos, porque já estamos há tanto tempo fazendo o mesmo, que daqui a pouco a gente canta como Gabriela: ‘ eu nasci assim, eu cresci assim, vou morrer assim!’ E vamos nos habituando a uma vida medíocre, a uma vida que não condiz com a vinda de Jesus Cristo.

            Desse modo, queridos irmãos, é preciso então que nós acolhamos o convite de Paulo (Fl 1,4-6.8-11), se dirigindo aos filipenses, que nos lembrava, claramente, pedindo a Deus que continuasse a obra que Ele mesmo começou. Paulo deixava claro que essa obra realizada na nossa vida, realizada na vida dos filipenses é  uma obra de Deus. Por isso, ele dizia: “Tenho a certeza de que aquele que em vós começou uma boa obra, há de levá-la à perfeição até o dia do encontro com Jesus”.

            Nós devemos hoje pedir ao Senhor que continue a Sua obra em nós, e que nós correspondamos a essa obra, façamos a nossa parte, para nos prepararmos para a vinda do Senhor! E mais ainda, Paulo dizia,  como ouvíamos na semana passada: ‘que o amor cresça  sempre mais’. Aprendamos a fazer com que o amor frutifique na nossa vida, dê  frutos, se enraize,  produza, cada vez mais, uma vida nova em todos nós.

            Aprendamos, meus irmãos, a semear o amor, aprendamos a trabalhar pelo amor, porque de ódio, de dor, de tristeza, nós já estamos saturados. Sejamos homens e mulheres que semeiam no silêncio da vida  a semente do amor, que transforma a nossa vida e a vida de toda a humanidade. Que assim como dizia Paulo, nós aprendamos a discernir o que é melhor para agradar a Deus, para vivermos puros e irrepreensíveis. O que fazer, quando fazer, o que falar? Como falar, quando falar. Nós somos, infelizmente, cada vez mais imediatistas. A gente não pensa antes de falar ou de agir, a gente vai pensar depois, aí vai se arrepender. Pensemos antes. Façamos uma obra de discernimento antes, para que depois não se arrependa do que fizemos ou do que falamos. Porque muitas vezes nós nos arrependemos mais do que falamos, do que daquilo que nós não falamos.

            Que a virgem Maria, nossa mãe, nos ajude, a como ela, prepararmos o caminho do Senhor, prepararmos a Sua chegada e que como ela, também tenhamos a capacidade de reconhecer que o Senhor fez, faz e fará maravilhas entre nós, de modo que nós tenhamos coragem e ousadia de dizer, todos os dias da nossa vida: Maravilha fez conosco o Senhor! Exultemos de alegria!

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