Ao longo desta última semana do ano, é normal encontrarmos, na internet e na televisão, muitas receitas para a virada do ano, sobretudo aquelas receitas daqueles programas fúteis da televisão, que muitas vezes acabamos assistindo. Quando ouvimos hoje, essa palavra, do Salmo 127, deveríamos nos perguntar se nós cremos nesta receita da felicidade que acabamos de escutar. Não estamos diante de uma receita dada por uma mãe de santo, não estamos diante de uma receita dada por uma astróloga, por uma apresentadora de TV, mas estamos diante de uma receita de felicidade, dada pela Palavra de Deus: “Felizes os que temem o Senhor e trilham Seus caminhos”. Eu e você, como homens e mulheres de fé, somos chamados a buscar e a experimentar a felicidade que todos nós desejamos, através destas duas atitudes: temendo o Senhor e trilhando os Seus caminhos. Não basta temê-lO, respeitá-lO… é preciso trilhar Seus caminhos, é preciso viver, na nossa vida, aquilo que ele propõe.
Hoje, de uma maneira especial e particular, a liturgia dentro desta oitava de Natal nos convida a celebrar a festa da Sagrada Família e, primeiramente, reconhecer o fato de que Deus escolhe nascer, entrar neste mundo… como eu e você entramos, graças a um homem e a uma mulher. Deus quis nascer e entrar em nossa história, como nós entramos, quis fazer a experiência de uma família, como nós a fazemos.
Mas ao mesmo tempo, quis nos dar a sua família concreta como a nossa, como um exemplo. Assim hoje, o evangelho (Lc 2,41-52) traz pra nós, uma verdadeira e clara catequese sobre a vida familiar.
Deveríamos hoje, se me permitem uma sugestão, antes de terminar o dia, retomar os 4 textos que ouvimos hoje: o cap. 2º de S. Lucas (Lc 2,41-52), o 3º do Eclesiástico (Eclo 3,3-7.14-17a), o 3º da carta aos Colossenses (Cl 3,12-21), e o Salmo 127, até para fazermos um balanço da nossa vida familiar.
E a primeira coisa que esta catequese do evangelho de hoje nos ensina é reconhecer uma família que vai ao templo, vai ao templo, com frequência, vai ao templo porque reconhece que o templo é o lugar privilegiado de celebrar a sua fé. Nós não podemos, meus irmãos, nos acostumar a celebrar a nossa fé diante da televisão, diante do computador, diante do celular…
Nós somos crentes, homens e mulheres de fé que celebram a sua fé no templo. O templo é o lugar privilegiado de celebrarmos a nossa fé. Por isso nos reunimos a cada domingo, por isso nos reunimos quando podemos, todos os dias. Por isso, a família de Nazaré ia ao templo, e ia todos os anos. Talvez, possamos dizer, ‘então poderemos voltar no ano que vem? Vamos ficar 1 ano sem vir? Não! Nós que temos fé, e somos católicos, sabemos da necessidade deste encontro semanal, com Aquele que nos alimenta, que nos fortalece em nossa caminhada.
Mas ao mesmo tempo, o evangelho de hoje nos dá outra lição, um outro ensinamento, nessa catequese. Essa família, por um momento, perde Jesus! Maria e José, de certa maneira, sem perceber, não estão mais com Aquele que é o centro da sua vida. Nós também poderíamos dizer que na nossa caminhada de família, em alguns momentos, nós perdemos o Senhor. Talvez nós caminhamos por onde não deveríamos, talvez tenhamos caminhado e fomos nos distanciando do Senhor. É preciso que nós, como Maria e José voltemos para encontrá-lo, voltemos ao templo para encontrar o Senhor que lá está, que aqui está e sempre estará nos aguardando, esperando por nós.
Mas esta catequese de hoje nos dá uma lição que deveríamos guardar no mais íntimo de nós. Maria, quando se encontra com Jesus, bota pra fora tudo aquilo que estava sentindo, tudo aquilo que estava vivendo. Maria nos dá, com seu Filho e com seu esposo, uma clara lição do diálogo entre nós. Nossas famílias, por um lado, estão ou emudecidas, ou estão num monólogo, ou estão numa gritaria. Não conseguem mais dialogar. Diálogo implica alguém que fala e alguém que escuta. Dentro de casa, às vezes, algumas pessoas, a esposa, o esposo, ou até os filhos, monopolizam a fala. Dá até vontade de falar, ‘vem cá, dá pra você ficar quieto só um pouquinho’?
É preciso que como Maria, nós aprendamos a falar, mas aprendamos também a silenciar, aprendamos a escutar, aprendamos a dialogar uns com os outros, e Maria, como dizia Santo Agostinho, nos dá uma lição de humildade, porque quando se encontra com Jesus, imediatamente, diz: “Olha, teu pai e eu te procurávamos, aflitos”. Maria coloca José na frente. Não coloca como se ela fosse a poderosa, aquela que manda!
“Teu pai e eu te procurávamos”. Hoje, na oração do Angelus, o Papa Francisco, comentando o evangelho, dizia que Maria nos convida a superar a ditadura do “eu” pra colocar o “tu” na frente. O “tu” está sempre na frente, o “outro” sempre está na frente. Na nossa vida familiar, quando estamos muito preocupados conosco, com as nossas coisas, com as nossas satisfações, nós vamos nos esquecendo do outro, do outro que está diante de mim, do outro que me interpela com o seu rosto, com as suas necessidades. E quando eu me abro ao outro, eu vou, de certa maneira, percebendo que estou, também cuidando de mim, porque o outro faz parte de mim.
Mas o evangelho de hoje nos convida, também, a reconhecer, como ouvíamos na leitura, no Eclesiástico, este filho que é obediente a seus pais. A 1ª leitura (Eclo 3,3-7.14-17a) era um comentário do 4ª mandamento da Lei de Deus: “Honra teu pai e tua mãe, para que tenhas longos dias sobre a terra”. Jesus soube ser obediente aos seus pais, mas soube no momento certo, também se emancipar deles. Nós, como filhos, tivemos um tempo da nossa obediência, mas chega o momento em que precisamos nos emancipar dos nossos pais, que não devemos mais obediência a nossos pais. Devemos honrá-los, devemos respeitá-los, mas já chegamos a uma autonomia. Nem pai e mãe devem querer mandar na vida de seus filhos a vida inteira. Os filhos já estão casados, já têm a sua casa, já têm a sua vida, e os pais continuam intervindo, mandando até na casa do outro… Isso não condiz com a nossa fé, não condiz com a palavra que acabamos de escutar.
E depois, o evangelho nos dá uma outra lição. Os pais de Jesus não entenderam o que estava acontecendo com seu filho, e Maria, então, guardava em seu coração todos aqueles fatos. Os pais precisam aprender que seus filhos não são e nunca serão uma projeção sua. Não adianta planejar a vida de seus filhos, porque tem um plano maior, tem um plano de Deus sobre a vida de seus filhos. E não adianta também, querer dominar tudo o que seus filhos farão. Há momentos na vida em que é preciso deixar que os filhos partam, que os filhos voem, e muitas vezes, voarão, partirão de forma diferente daquilo que vocês planejaram. Meu pai e minha mãe nunca planejaram que eu fosse padre, e chegou um momento em que a decisão era minha, que o plano de Deus tinha que prevalecer na minha vida acima do plano de meus pais.
Assim, meus irmãos, Maria e José reconhecem que na vida de Jesus tinha um plano maior do que o deles. E o evangelho termina hoje, nos convidando a olhar essa palavra de Paulo, que nos chama a uma relação familiar marcada por tantas atitudes que transformam a vida de nossas famílias. Paulo nos convidava: “Revesti-vos todos de sincera misericórdia, bondade, humildade, mansidão e paciência, suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos mutuamente, se um tiver queixa contra o outro”.
Caberá a nós hoje, qual receita da felicidade que seguiremos nesta semana e ao longo do próximo ano que está para se iniciar, mas a receita que Deus acabou de nos oferecer, se resume nesta frase:
Felizes os que temem o Senhor e trilham Seus caminhos…