Ao celebrarmos o quarto domingo do Advento, a liturgia nos coloca diante de uma certeza que nenhum de nós poderia deixar passar despercebida da nossa vida: a certeza de que Deus vem nos visitar. A certeza da Sua vinda, a certeza da Sua visita, já de antemão, para nós é motivo de alegria. Só o fato de sabermos que o Senhor vem até nós, todos nós já experimentamos a certeza de que temos um Deus que se preocupa conosco, de um Deus que não é insensível a nós, de um Deus que não nos assiste à distância, de um Deus que não está longe de tal maneira, que nós nos sintamos, talvez sozinhos e desamparados, na caminhada dessa vida. É exatamente o contrário. Mas essa visita não pode ser para nós, também, quase como se fosse algo para algumas pessoas: algumas receberão o Senhor e outras não! Ao contrário, a vinda do Senhor é para todos nós, a vinda do Senhor é oferecida a todos aqueles que quiserem recebê-lO.
Na 1ª leitura de hoje (Mq 5,1-4a), nós ouvíamos o profeta Miqueias convidando a cidade de Belém a reconhecer que, apesar da sua pequenez, apesar da sua aparente indignidade, seria ela visitada pelo Senhor! É uma palavra, meus irmãos, que nos convida a olhar para nós mesmos e reconhecermos que somos, hoje, uma Nova Belém. Na verdade, somos nós a Belém hoje, na qual o Senhor vem visitar, somos nós hoje a Nova Belém, na qual o Senhor deseja nascer. Na verdade, nós muitas vezes não nos damos conta de que o Senhor vem para nós, de que o Senhor é dado a nós, de que o Senhor é oferecido a nós, e podemos dizer que O acolhemos, que O recebemos, que Ele é nosso. Ele é nosso e nós somos dEle.
Na verdade, hoje eu e você precisamos olhar para todos nós, pra dentro de nós e nos perguntarmos, se temos espaço para receber o Senhor. Nós estamos cada vez mais ocupados com tantas coisas, envolvidos com tantas coisas, preocupados com tantas coisas, que nós nem sempre temos espaço para o Senhor que vem até nós.
A liturgia de hoje narra nesse evangelho (Lc 1,39-45), tão significativo da Virgem Maria que, imediatamente, após receber o anúncio do anjo Gabriel, agora é ela que parte ao encontro de Isabel… Talvez ao escutarmos esse evangelho, nós pudéssemos pensar: mas o que ele diz a nós, hoje? O que o evangelho de hoje na verdade, quer nos ensinar? A primeira coisa que o evangelho de hoje quer nos ensinar é que foi graças a um sim, generoso de uma mulher, que nós hoje estamos aqui. Foi graças ao sim generoso da Virgem Maria, que hoje, depois de mais de 2000 anos, eu e você nos encontramos aqui, celebrando a nossa fé. Por isso que esse evangelho nos convida, num primeiro momento, a fazermos o mesmo que Isabel fez com a Virgem Maria: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre”, a reconhecer nela a ação de Deus, a reconhecer nela Deus agindo e Deus entrando na nossa história. Por isso, que todos nós somos devotos da Virgem Maria, por isso que todos nós a veneramos, porque cremos que foi pelo seu “sim” que nós recebemos o Salvador!
Mas, ao mesmo tempo, esse evangelho também quer nos ensinar. E nos ensinar, todos os dias da nossa vida, que a visita de Deus não pode ser para nós, motivo de ficarmos parados. De certa maneira, muitos de nós até ficamos agitados e andando bastante, mas é preciso que nós entendamos o que esse evangelho de hoje quer nos mostrar: a visita da Virgem Maria a Isabel é um ensinamento para nós, para nos lembrarmos de que nós, também, a exemplo da Virgem, somos chamados a levar o Senhor, somos chamados a experimentar a sua visita, para que nós sejamos outros visitadores. Para que nós sejamos como a Virgem Maria que leva o Senhor. O evangelho narra a alegria de Isabel ao se encontrar com a Virgem Maria. Mas de onde vem essa profunda alegria experimentada por ela? De onde vem a alegria que faz com que João Batista pule, exalte no seu seio, no seu ventre? Vem da certeza da visita do Senhor. Hoje, esse evangelho nos faz pensar o quanto nós também podemos levar aos outros essa mesma alegria, ou quanto nós temos de missão, porque nós recebemos o Senhor, nós fomos visitados por Ele. Nós o carregamos dentro de nós, como a Virgem. Daqui a pouco nós vamos receber o Seu corpo e o Seu sangue, seremos habitados pelo Senhor. E ao voltarmos para casa, não podemos voltar da mesma maneira. Não podemos encontrar os outros da mesma maneira, porque nós somos templos do Senhor. Nós O carregamos dentro de nós. Da mesma forma que a Virgem Maria, também nós, depois de experimentarmos essa visita, precisamos partir… partir apressadamente, para servir, para ajudar a quem precisa de nós, mas sobretudo para levarmos Aquele que nos visitou e que deseja visitar tantas outras pessoas.
É preciso que todos nós hoje, nos sintamos convidados a assumir, na nossa vida, o que ouvíamos na 2ª leitura da missa de hoje (Hb 10,5-10), quando o autor da Carta aos hebreus nos fazia lembrar que Jesus entra no mundo, disposto, totalmente, a se entregar, a nos servir, a nos amar, a ofertar a Sua vida por todos nós. E nós, ao recebê-lO, não podemos fazer outra coisa, senão ofertar a nossa vida… Ofertar a nossa vida, queremos, é o que nós constantemente cantamos, a vida que recebemos não pode ser fechada em nós mesmos, porque é uma vida que morre, ao contrário, a vida que recebemos é uma vida para ser doada, para ser ofertada, para ser entregue aos outros. Não é possível servir a um Senhor que entrega a Sua vida, se nós não queremos entregar a nossa, se nós não queremos servir, como Ele serviu ao longo de toda Sua vida!
Que a Virgem Maria, nossa mãe, nos ajude a fazer o mesmo que ela, acolhermos a visita de Deus, para que nós possamos também ser, agora, homens e mulheres que visitam tantas pessoas, não porque somos os melhores, não porque as pessoas precisam de nós, mas porque as pessoas precisam dAquele que nós recebemos e que nos habita.
Que a Virgem Maria, nossa mãe, nos ajude a seguir em frente, para que nós também possamos um dia, escutar o mesmo elogio que ela acabou de ouvir dos lábios de Santa Isabel: bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu.