O que dizemos, no Salmo 22, não pode ser apenas uma palavra, que repetimos, quase como uma criança, que aprende a falar alguma coisa e repete. Mas precisa ser, para cada um de nós, uma profissão de fé. Todos nós desejamos, ardentemente, habitar na casa do Pai, porque eu e você fomos criados para essa casa. Por isso, Jesus nos lembra, no evangelho, “na casa do meu Pai há muitas moradas e eu vou preparar para vós um lugar” (Jo 14,2). Na casa de Deus tem um lugar reservado, pra mim e pra você.
Todos nós estamos vivenciando um tempo desafiador, um tempo questionador, que mexe com cada um de nós, que nos incomoda e que muitas vezes nos faz até refletir mais profundamente sobre a nossa fé.
O Sl 22 no faz proclamar: “O Senhor é o pastor que me conduz; não me falta coisa alguma.” Nós cremos, de fato, nessa palavra? Será que nós cremos, que de fato, o Senhor cuida de nós, apesar de tudo o que estamos vivenciando? Ele é ou não é o nosso Pastor? Você agora, tem certeza de que Ele é o pastor que conduz a sua vida? Essa palavra nos conduz a um ato de fé, pra reconhecermos que, mesmo que passemos por vales tenebrosos, o Senhor continua nos conduzindo, e não importa se estamos mergulhados em tantos problemas, tantas dificuldades, o Senhor continua nos conduzindo, o Senhor continua nos pastoreando, o Senhor nos convida a entrarmos na sua casa e fazermos parte da festa que Ele preparou para nós.
Curiosamente, a Palavra nos revela a face de um Deus que faz festa, que prepara festa pra nós… Contudo, nem sempre é esse Deus que nos é apresentado. Vejam o que o profeta Isaías nos mostra: “O Senhor dos exércitos dará neste monte, para todos os povos, um banquete de ricas iguarias, regado com vinho puro, servido de pratos deliciosos e dos mais finos vinhos.” (Is 25,6)
É esse Deus que nós seguimos, é esse Deus que nos pastoreia, que cuida de nós, e por isso o profeta continuava dizendo: ”O Senhor Deus eliminará para sempre a morte e enxugará as lágrimas de todas as faces e acabará com a desonra do seu povo em toda a terra”. É nesse Deus em que nós cremos, meus irmãos, é esse Deus que é nosso pastor, e é esse Deus que faz hoje pra nós, a festa do banquete do seu filho, banquete nupcial do cordeiro. Banquete este do qual todos nós fazemos parte, somos todos convidados. Todos somos convidados. Não nos esqueçamos de que esta Palavra não é só pra mim ou pra você. Esta palavra é para todo homem, para toda mulher, é para a humanidade inteira, somos todos convidados a fazer parte deste banquete. Mas o evangelho é claro, muitos não deram ouvidos a este convite. Ainda hoje, eu e você testemunhamos a mesma coisa. Tanta pessoas convidadas, tantas pessoas que gostaríamos, que estivessem aqui e não estão. Muitos ocuparam-se em fazer outras coisas, ou servir a outros senhores… E o que nós vamos fazer, meus irmãos? Vamos ficar desesperados, preocupados? Não! Vamos aproveitar a festa. Eu e você estamos na festa! Eu e você estamos na casa do Senhor, vamos aproveitar!
Aprendamos a respeitar a liberdade da nossa família, a liberdade dos outros. Quantas vezes, encontramos maridos e esposas incomodados, porque o seu cônjuge não quer participar da igreja com eles. Padre, meus filhos não querem vir à igreja! Ir à igreja é escolha, ninguém é obrigado! Na igreja sempre vai valer aquele ditado: “porta da rua, serventia da casa”! Ninguém, nem eu nem você somos obrigados a fazer parte deste convite. É e será sempre, um convite.
Aprendamos a respeitar a nossa liberdade e a liberdade dos outros, como Deus faz conosco. Deixemos, deixemos os outros seguirem outros caminhos, é a liberdade que Deus nos dá. Isso nos incomoda, porque muitas vezes queremos todos num cabresto, queremos todos debaixo de nossas asas, queremos todos controlados… Deus não faz isto, nem comigo nem com você! Deus nos faz um convite, não uma imposição!
E por isto, o evangelho (Mt 22,1-14) nos mostra, que o Senhor resolve, então, chamar mais gente, alargar o seu convite. E pra esta festa são convidados maus e bons. Como essa palavra nos consola, porque do seu lado, do meu lado, tem gente boa, mas também tem gente má. Porque na verdade, eu e você somos bons, mas também, muitas vezes somos maus. Não pensemos que nós somos os bons e os que estão fora da igreja são os maus. Porque dentro da igreja tem gente boa, mas também tem gente má.
Não nos esqueçamos, meus irmãos, de que o pecado ainda existe. Não nos esqueçamos de que somos livres para escolher, e por isso podemos errar, e muitas vezes erramos. Esta palavra nos consola, porque muitas vezes nós queremos uma igreja perfeita, uma paróquia santa, a começar pelo padre. E nos esquecemos de que somos todos pecadores. Só Deus é santo, só Ele é três vezes santo. Eu e você somos pessoas falhas. Isso nos consola, mas ao mesmo tempo, isso nos motiva a sermos melhores, a nos empenharmos para vivermos, verdadeiramente, o que Deus nos pede.
Por isso o dono da festa questiona um homem que está na festa, sem a veste da festa, sem a veste nupcial. O que esta parábola nos faz lembrar? Nos remete, diretamente, ao dia do nosso batismo, quando nossos pais e padrinhos fizeram questão de nos vestir da melhor maneira possível. E naquele dia, mesmo sem saber, ouvimos uma palavra que estávamos sendo revestidos de Cristo, recebendo a veste de Cristo, como lembra Paulo (Gl 3,27). Aquela veste, que eu e você recebemos, no dia do nosso batismo, é a veste que nos acompanha, é a veste do filho e da filha de Deus, que muitas vezes é manchada, de fato, mas pode ser purificada, e é purificada, a cada celebração eucarística, a cada ocasião em que vamos nos confessar, e esta veste é renovada, é limpa, é refeita, e por isso nós podemos estar na festa, e estaremos sempre na festa, com a veste nupcial.
Mas assim, não vamos ficar apenas na festa, porque o Senhor nos envia e nos convida, então, para lá fora, em nossas casas, no trabalho, na rua, onde quer que estejamos, eu e você vivamos como filho e filha de Deus, testemunhando que temos um pai que cuida de nós, que temos um pai que é pastor, que nos pastoreia, que nos ampara, que nos guarda, que nos protege. E por isso nós dizemos sempre, “na casa do Senhor eu habitarei eternamente, porque lá é o meu lugar”. É muito melhor estar na casa do Senhor do que perdido por aí… e nós somos convidados a fazer parte desta família. Somos hoje, também, convidados a convidar tantos outros: a convidar, não a impor a ninguém, e dizer a eles: você não quer vir fazer parte? você não quer vir experimentar estar na casa do Pai? Esse pai não é só meu, é seu, também. Aprendamos, meus irmãos, a propor a nossa fé, não a impor a nossa fé. A fé deve ser proposta, jamais deve ser imposta.
Que a Virgem Maria nossa mãe, como mulher de fé, mulher de esperança, nos ajude a reconhecer que não há lugar melhor do que a casa do Senhor, para viver para sempre. E que assim, ao concluirmos nossa caminhada nessa terra, cheguemos definitivamente à casa do Pai, onde Ele preparou pra nós uma morada. Porque lá, eu, você, a Virgem Maria, os anjos e santos experimentaremos, eternamente, o banquete nupcial do Cordeiro, que estamos começando a experimentar aqui e agora.
Na casa do Senhor habitarei eternamente!
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