As festividades da Páscoa haviam terminado, e os grupos de peregrinos já deixavam Jerusalém. Era muito cedo. O menor passo lhes era difícil, por medo, por tantos sentimentos desencontrados, dentre os quais predominava a frustração. Já o dia estava avançado, quando transpuseram as muralhas da cidade. Sequer olharam para trás: não queriam mais saber daquela cidade que mata os profetas.
O silêncio era grave e perturbador. Dias atrás, haviam chegado entre alegrias e cantos. Agora, cada palavra lhes traria de volta a visão horrenda do Mestre supliciado, suspenso entre insultos e sarcasmo. “Como ovelhas cujo pastor foi ferido”, disse um deles, traduzindo o sentimento. Fragmentos da Escritura subiam à memória, nas não havia sentido algum naquilo que acabaram de viver. Os risos dos outros que deixavam a cidade em meio à excitação da festa causavam ainda mais dor. Outros grupos os ultrapassaram sem que eles sequer notassem os esbarrões.
Foi quando um homem os alcançou e se pôs a caminhar ao lado deles, no ritmo deles, passo a passo. Um silêncio seguido de uma pergunta: do que falavam com semblantes tão abatidos? Como nada em Jerusalém passasse despercebido, um dos dois respondeu espantado de que o estranho andarilho nada soubesse dos últimos acontecimentos.
Falaram de Jesus de Nazaré, profeta poderoso em obras e palavras, que fora preso, acusado, condenado pela autoridade romana e crucificado. Um deles suspirou por todas as esperanças perdidas. O outro falou da surpresa que as mulheres causaram ao narrar uma história de anjos e de um túmulo vazio. Ele foi lá. Tudo era compatível com a narrativa delas. Mas, era só isso.
Foi quando o terceiro homem, nada surpreso com o que ouvia, começou a citar as escrituras. Foi aí que um sentido começou a brotar, lento como a luz da madrugada, forte como um sol que desponta. Ninguém viu o tempo passar!
Caía a noite e eles se aproximaram da aldeia de Emaús. Guarde esse nome!
O terceiro homem intencionou continuar o caminho, mas eles o impediram, dado o avançado da hora, fizeram-lhe o convite para que entrasse e compartilhasse a refeição.
– Fica conosco, é tarde, o dia já está terminando!
O resto da história é por demais conhecido: os artistas não pouparam tintas e pincéis para dar à arte certas possibilidades negadas à palavra. Mas há algo no relato que a arte teria dificuldade em tornar visível. Voltando à Jerusalém, e a correr, um dizia ao outro: “Não ardiam de alegria os nossos corações enquanto ele falava conosco?”
Essa lua-de-mel, vivida com a marca dos cravos nas mãos e nos pés, e o rasgo de lança ao lado, foi o começo de uma nova família humana.
Ao chegarem em Jerusalém, subiram os degraus de dois em dois e encontraram os discípulos reunidos. Todos falavam ao mesmo tempo. Sim, Pedro também o havia visto. Uma só palavra tomava conta dos relatos: ressurreição. Sim, ele havia ressuscitado!
Então, no meio da cacofonia de vozes e de sentimentos, ele se fez presente. Era ele mesmo! Suas mãos e pés traziam as marcas da história vivida. Então, em meio ao silêncio, ele lhes abriu o entendimento. E eles compreenderam o que acontecera. E eles se abriram ao futuro, e o futuro se abriu a eles. Sim, é isso mesmo que você pensou: Nós somos esse futuro aberto desde aquele encontro. Sim, nós somos testemunhas de testemunhas, que foram testemunhas de testemunhos. Sim, é isso mesmo: nós somos portadores da mais alta das notícias que já povoaram a história do mundo. Um de nós foi vendido pelo companheiro íntimo. Um de nós foi submetido às desigualdades do poder. Um de nós passou pela desqualificação da memória. Para com um de nós, não houve misericórdia.
Pois é! Somos tão justos! Mas só quando a justiça nos beneficia.
Uma curiosidade que talvez você ainda não tenha pensado. Nenhum dos quatro evangelhos descreve, exatamente, o acontecimento como tal da ressurreição de Jesus. Há um salto prefigurativo daquele mesmo que teremos de dar.
Você viu o evento? Andou com o Ressuscitado? Comeu com ele? Trocaram ideias? Eu também não. É esse o salto. Se os primeiros foram capazes de dar esse salto no escuro e entender todos os sinais, se foram capazes de interpretar tudo o que alterava as rotinas e as retinas, por que não, também nós?
O Ressuscitado caminha a seu lado, no seu entendimento e no seu coração. Sua casa é o albergue de Emaús. Seu pão é ainda o mesmo que ele poderá tomar, pronunciar a bênção, repartir entre os necessitados, enquanto olha para você e sussurra: É assim, viu! É assim que a saga da ressurreição continua entre os humanos, aqueles mesmos para quem os anjos já tinham chamado de “homens de boa vontade”, lá atrás, quando o Menino nasceu, lá atrás, quando tudo começou.
Sua casa é o albergue de Emaús. Acolha quem passar, não negue o pão nem a palavra. Convide a ficar um pouco mais. Pergunte, ouça, não invalide a palavra. Quem não sabe falar, surpreende quando fala. Permita-se essa surpresa. Enxergue em cada sofrimento a marca de cravos e de lanças cortantes. E na despedida, não esqueça de pensar ou de dizer: Não demore, volte sempre, Jesus! Aqui também é Emaús.
Que todas as preocupações com a vida não nos afastem da Vida!
Feliz tempo Pascal! Que nossas mentes e nossos corações sejam iluminados pelo clarão de uma luz de meio-dia, que não conhece ocaso.
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