Ao escutarmos estas palavras do salmista (Sl 79), também poderíamos dizer, ‘nós somos a vinha do Senhor, nós somos a vinha plantada, cultivada, guardada pelo Senhor. Eu e você, ao longo destas últimas semanas, fomos apresentados à imagem precisa da vinha.
Recentemente, o Senhor nos dizia, “Ide vós, também, para a minha vinha” (Mt 20,4). Na semana passada, o Senhor nos mostrava os dois irmãos, filhos do mesmo pai, que eram enviados para trabalhar na vinha: um disponível, que imediatamente dizia sim, mas não ia pra vinha, e o outro ao contrário, dizia ‘não, eu não vou’ e depois tomava consciência do seu erro e resolvia partir para a vinha do Senhor e trabalhar nessa vinha.
Em Mt 21,33-43, Jesus chega ao ponto alto destas parábolas, e nos mostra, mais uma vez, a vinha do Senhor. A vinha que é o povo de Israel. Jesus aqui está, claramente, se dirigindo ao povo do qual Ele mesmo fazia parte, seu povo, o povo de Israel, que se considerava a vinha do Senhor, o povo eleito, o povo de Deus, o povo que o próprio Deus escolheu, conduziu, e continuaria conduzindo ao longo da história. Mas esse povo, escolhido por Deus como a sua vinha, foi um povo também rebelde, foi um povo infiel.
Através de Isaías (5,1-7), o Senhor nos dirige a Sua palavra e diz: “Eu esperava uvas boas, e o que recebi? uvas selvagens.” No final, ele diz, “Eu esperava deles frutos de justiça, e eis injustiça, esperava obras de bondade, e eis iniquidade.”
O povo de Israel, mesmo que amparado, conduzido pelo Senhor, se tornou um povo infiel. Interessante nos lembrarmos de que eu e você também fomos chamados a fazer parte deste povo, a fazer parte do povo de Deus, da vinha do Senhor, e por isso hoje, nós não podemos escutar esta palavra, achando que a infidelidade é apenas do povo de Israel. Eu e você também podemos nos tornar infiéis, também podemos virar as costas para o Senhor, também podemos deixar de produzir frutos bons, frutas boas.
O evangelho mencionado acima nos mostra, claramente, como Deus fez com este povo e a sua vinha. Deus não só conduziu este povo, mas colocou seus representantes para orientar, pra conduzir este povo. E por isto, o evangelho nos mostra que Deus envia os seus empregados para pedir contas aos vinhateiros. É a imagem clara do povo que foi conduzido pelos patriarcas, pelos juízes, pelos reis, pelos profetas, e mesmo assim, foi um povo que foi se rebelando contra os representantes de Deus. E depois, o dono da vinha, o próprio Deus resolve enviar o seu Filho e ainda pensa: ‘ao meu filho eles vão respeitar’. E o que fez este povo? Matou o próprio Filho de Deus, matou o herdeiro. Por quê? Porque esse povo se sentia dono da vinha, esse povo se sentia proprietário, achava que a vinha era dele.
Se olharmos bem, meus irmãos, esta palavra cai perfeitamente, em nossa vida, hoje. Nós, como a vinha do Senhor, como a Igreja do Senhor, como seu povo, também somos questionados. Até que ponto nós não estamos achando que a vinha é nossa? é propriedade nossa? Quantas vezes nós escutamos pessoas dizendo “fulano parece dono da igreja, dono da paróquia”.
Quem é o dono da Igreja? Sou eu? Você? Nenhum de nós… todos nós somos vinhateiros, todos nós estamos cuidando da vinha que não é nossa. Não somos proprietários, não temos direito, como o dono tem direito, na sua vinha.
Ao mesmo tempo, essa palavra nos faz lembrar algo interessante que às vezes, passa despercebido por nós. Esses vinhateiros vão e atacam aqueles que o próprio dono da vinha envia. Vejam se não é a imagem daquilo que hoje nós vivemos? Quantas vezes o Santo Padre hoje é atacado por homens e mulheres de dentro da Igreja! Quantas vezes os nossos bispos são atacados, quantas vezes nós, padres, somos atacados, por gente de dentro da Igreja…
O que no fundo está acontecendo? O mesmo que o evangelho acabou de nos mostrar: são pessoas que se sentem donas da vinha, proprietárias da vinha, que querem dominar, que querem fazer a sua vontade. E muitas vezes não vão apenas contra o padre, contra o Papa, contra os bispos, contra os sacerdotes, mas vão contra o próprio Senhor, a sua Palavra, o que Ele nos pede e se rebelam contra o Senhor. Querem fazer não mais parte da vinha do Senhor, mas da sua própria vinha, querem fazer da Igreja não mais a Igreja do Senhor, mas a sua igreja, nos seus moldes, nos seus esquemas, com as suas vontades e seguindo seus critérios (Gl 1,11s).
E por isso, o trecho de Isaías nos lembra, com toda clareza, que Deus então, deixa esta vinha. É uma palavra forte de juízo contra nós, contra nós que nos rebelamos contra o Senhor.
Mas é tão expressiva a Palavra, que o Salmo 70 mostra a possibilidade que temos de nos arrepender, de pedir ao Senhor que nos converta, que volte a cuidar de nós, que volte a guardar a sua vinha. O salmista declara:
“Foi a vossa mão direita que a plantou, protegei-a e ao rebento que firmastes! Voltai-vos para nós, Deus do universo! Olhai dos altos céus e observai. Visitai a vossa vinha e protegei-a!”
É uma palavra de súplica, de reconhecimento que nós erramos, que nós falhamos, que nós nos tornamos infiéis, que nós não seguimos o que o Senhor esperava de nós!
E o salmista continua: “E nunca mais vos deixaremos, Senhor Deus! Dai-nos vida e louvaremos vosso nome! Convertei-nos, ó Senhor, Deus do universo e sobre nós iluminai a vossa face”! E termina o salmista: “Se voltardes para nós, seremos salvos!”
É a consciência clara do povo de Deus que se reconhece agora, necessitado de voltar, necessitado de se converter, necessitado de se unir, cada vez mais, à pessoa de Jesus Cristo, para produzir muitos frutos, para cumprir aquilo que o próprio Jesus havia dito no cap. XV do evangelho de São João: “Eu sou a videira verdadeira, vós sois os ramos. Se permanecerdes em mim produzireis muitos frutos e os vossos frutos permanecerão.”
O mesmo Senhor nos lembrava, “pelos frutos reconhecereis a árvore”.
Qual o fruto que estamos produzindo? Qual o fruto que eu e você hoje produzimos na vinha do Senhor, na casa do Senhor? Produzimos frutos bons? ou frutos selvagens?
Caberá a nós, hoje, guardar as palavras de Paulo aos Filipenses (Fl 4,8s): “Não vos inquieteis com coisa alguma! Quanto ao mais, irmãos, de tudo, com tudo o que é verdadeiro, respeitável, justo, puro, amável, honroso, tudo o que é virtude ou de qualquer modo, mereça louvor. Assim, o Deus da paz estará convosco.”
Que esta palavra que acabamos de escutar nos leve a uma ação de graças, porque nos reconhecemos como membros da vinha do Senhor, mas nos leve também a um pedido de perdão, pelas vezes em que nós não fomos fiéis ao dono da vinha, e assim, supliquemos ao Senhor que nos dê a sua graça, pra nos convertermos, pra nos voltarmos pra Ele, como Ele se volta a nós, para que assim, produzamos frutos, frutos bons e frutos que permaneçam.
A vinha do Senhor é a casa de Israel!