O dia de Nossa Senhora Auxiliadora, na véspera do qual eu escrevo este artigo, sempre me traz as mais belas recordações sobre as origens da minha vocação: era ela a padroeira do Seminário onde estudei os primeiros anos. A certeza de sua proteção eficaz nos deixava embevecidos, até com o mundo que nos esperava: seríamos portadores da luz do Evangelho do seu Filho Jesus, dos centros às periferias do mundo.
Naquela época, ainda não estava claro que cada ser humano, por si só, também tinha suas periferias, traumas, desencontros consigo mesmo, e que só uma força interno-externa o tiraria do imbróglio para o qual ele, frequentemente, escorrega: o de se considerar deus-de-si-mesmo. Cada vez mais crítico, para realizar o antigo sonho de ser seu deus, o homem acaba se achatando e se resignando em ser bem menor que a proposta inicial de Deus.
Daí, que ele despenque num nivelamento desconsolador. Daí que ele se submeta às exigências macabras de produção e consumo, de comércio do amor e da liberdade (que a mídia transformou em espetáculo). Cegueira total. Mas sempre com a impressão de estar no controle do Titanic. Até que ele afunde!
Muitas das ideias que circulam por aí são iguais, da fonte aos resultados: a proliferação de eventos, que prometem ser originais, sobretudo, nas aparências da tolerância ao diferente, mas que só repetem, obsessivamente, o idêntico. Isso torna a realidade cada vez mais evidente, previsível, funcional e pobre. Será, mesmo, destino do mundo ser apenas mera e tola sucessão de relações causa e efeito, e nada mais? Numa sociedade dotada de satélites e computadores, mas desenraizada de suas origens, qual será o futuro da religião e da humanidade do homem?
Não é possível obrigar ninguém à fé. Mas não é impossível que a renúncia a Deus advenha do exterior, em nome de valores, realmente, validados, como contemporaneidade e desenvolvimento.
Existe uma estrada, ainda que acidentada, para a recuperação da fé em época de secularização. E existem formas recorrentes de ateísmo, com trejeitos de modernidade, que, na verdade, mais denunciam a manipulação a que são expostas as sociedades na busca frenética de conforto e bem-estar. Todo homem é livre para crer ou não em Deus, mas ele não deveria se considerar livre quando fosse manipulado por sua própria indolência.
A História já registrou verdadeiras conversões. Agora estamos inaugurando a era do ateísmo-chique, de que faz parte uma negação de questionamentos. Esse ateísmo-chique se comporta como se Deus não existisse. Trata-se de uma forma de ateísmo negativo: não há nenhuma profissão ativa da não existência de Deus. Aliás, Deus sequer faz parte de uma discussão entre certos pensadores de sangue nobre: Deus não é negado, porque jamais foi afirmado. Deus permanece como decoração de fundo de palco, coisa nunca expressa, nunca tematizada e até mesmo supérflua. A modernidade se queixa de um Deus ausente, que não provoca o debate nem faz ouvir sua voz. Mas ele foi convidado?
Ao contrário do que aconteceu em outros momentos da História, hoje, Deus não aparece como algo do qual se fale mal, mas como algo do qual absolutamente não se fala.
O mundo das coisas, representado pela internet das coisas, tomou a dianteira. Mas Deus não é uma coisa. Coisas são manipuladas. Deus não é! Será por isso que ele foi relevado à condição da mais sublime irrelevância?
Se bem que, às vezes, nós lhe damos uma oportunidade de se mostrar, como se o mundo fosse um programa de calouros e Deus, o cantor juvenil. Nesse exemplo, é claro que nós seremos os julgadores experientes. Damos a isso o semblante de ser uma recuperação do religioso, sem ver que caminha no sentido oposto: essa “recuperação” de Deus acarreta a perda do seu mistério e de sua profundidade. Deus existe? Claro que sim! Responde a maioria. Mas ele apenas comparece como divindade-coisa, manipulável ao gosto do fiel.
Nesse caso, não se renuncia a Deus, como acontece no ateísmo negativo. Aqui, a bem da verdade, Deus é salvo. Mas salvar um Deus para dispor dele não passa de uma ilusória exaltação do eu (que é o que sempre se quis, não é?). O eu cria e embala suas ilusões, para depois se livrar delas. Esse Deus prático das conversas de botequim tanto pode ser pensado e exaltado, como colocado em dúvida, abatido e morto. Não faz diferença! Para os que agem assim, Deus também nunca fez diferença, a não ser para servir à nossa majestade.
As línguas ajudam a compreensão dos eventos. Não deixa de ser curioso que a palavra “DEUS” contenha um EU, bem no centro, bem onde a pronúncia se acentua, para não nos deixar esquecer do maior de todos os milenares autoenganos, que foi o de representar Deus à nossa imagem e semelhança. “Se Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, o homem lhe retribuiu a gentileza na mesma moeda”.
Mas, infelizmente, é assim também que nos comportamos quando criamos um Deus serviçal, quase um garçom cósmico, sempre de avental e de cara boa. Será mesmo possível ser assim?
Precisamos nos aprofundar na fé e no crescimento, entender melhor o Mistério. Essa é a parte que nos compete na Criação do mundo: crescer para reconhecer o Criador, e nos reconhecer como objetos de um amor do qual não se discutem os limites nem tampouco se abusam. É bom não esquecer que as criaturas somos nós.
Teremos agora duas solenidades, a de Corpus-Christi e a do Sagrado Coração de Jesus: momentos admiráveis para nos aprofundarmos no Mistério de Deus Amor. Nada supera o seu amor por nós.
Por isso, que nada nos desvie a atenção de quem, realmente, se importa com a nossa atenção. Não porque sejamos belos, ricos, inteligentes, satisfatórios. Ele se importa apenas porque nos ama. Não seria algo a ser levado a sério, demais?
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