DOM JOSÉ FRANCISCO – Vocação Universal à Santidade

O Dia de Todos os Santos é uma festa celebrada por crentes de muitas igrejas da religião cristã em honra de todos os santos e mártires, conhecidos e desconhecidos. Já no fim do segundo século, os cristãos começaram a honrar os que haviam sido martirizados pela fé, e, certos de que já estavam com Cristo no Céu, oravam, para que eles intercedessem a seu favor.

Em 610, o Papa Bonifacio IV dedicou o Panteão Romano, um templo em honra a todos os deuses, à Maria e a todos os mártires. Os deuses romanos cederam seu lugar aos santos. Em 835, o Papa Gregorio IV a declarou como festa universal. Os santos são, como nos fala o livro do Apocalipse, a multidão de pessoas de várias nações que alvejaram as suas vestes brancas no sangue do Cordeiro e, diante do trono de Deus, proclamaram hinos e cânticos de louvor e agradecimento, dizendo que a salvação procede do Cordeiro (Ap 7).

Com o avançar do tempo, na história da Igreja, cada vez mais, homens e mulheres se sucederam como exemplos de santidade. Daí, veio a intenção catequética desta celebração, que ressalta o chamamento de Cristo a cada pessoa para segui-lO e ser santo. O Papa João Paulo II foi um grande impulsionador da VOCAÇÃO universal à SANTIFICAÇÃO; tema enfatizado no documento Lumen Gentium do Concílio Vaticano II.

Esse documento de quase 60 anos traz questionamentos para a Igreja dos nossos dias, que podemos enxergar como “provocações” – um texto sobre a vocação universal à santidade faz ao nosso jeito de ser Igreja. O conceito de santidade é a primeira dessas “provocações”. Na mentalidade popular, a santidade ainda tem sabor angelical, considerada como algo pouco humano. Passou da hora de não mais confundir ser santo com certas beatices e carolices. A santidade dos cristãos e cristãs deveria produzir um mundo esplêndido, mais bonito, mais sadio. De onde proveio a ideia de que o santo e a santa deveriam ser confundidos com neuróticos e alienados?

Afirmar a atualidade da santidade é mais do que exigir os dois milagres extraordinários para uma canonização. Afirmar a atualidade da santidade é mostrar, pelo testemunho de vida de alguém, que o seu cotidiano já foi um milagre. É imprescindível reconhecer os santos e as santas que estão vivendo no meio de nós, como faziam as primeiras comunidades, na certeza de que fomos escolhidos pelo Pai, desde toda a eternidade (Ef 1,4). Nesse sentido, a Solenidade de Todos os Santos e Santas, celebrada pela Igreja nos inícios de novembro, é, também, a festa de todos nós, discípulos missionários de Jesus, que fazemos parte de “um sacerdócio real, uma nação santa”, um povo que é propriedade” do Senhor (1Pd 2,9).

Falando nisso, é impossível me esquecer de uma senhora que vivia na minha terra, e que sofria de um terrível reumatismo deformante. Só quem a tem, sabe o quanto essa patologia é dolorosa! Meus olhos ainda a veem, quando penso nela. Curiosamente, ela recebeu do povo o apelido de Santa, e assim era reconhecida. Do seu leito de dor, ela recebia a todos, aconselhava, ria das pilhérias, contava as dela, verdadeiramente, evangelizava. Ganhou um rádio da Alemanha e escutava as estações alemãs e a Rádio do Vaticano.

Estava permanentemente antenada, não nas fofocas da cidade, que ela cortava da conversa como se corta um bolo de aniversário, mas em como traduzir, na linguagem das pessoas tudo o que ela ouvia nas rádios, mas, sobretudo, o que significava para ela o sofrimento redentor. A Santa, provavelmente, não será oficialmente canonizada. Mas já o fora em vida.

Essa é a vocação universal à santidade, resgatada pelo Vaticano II, com fundamentação bíblica: “Sejam santos, porque eu sou santo” (Lv 19,2). Isso pertence ao maravilhoso patrimônio que os cristãos herdaram do Judaísmo. Pelo Batismo, todos somos chamados à santidade. A Lumen Gentium do Vaticano II estendeu a universalidade da vocação à santidade a todos os homens e mulheres da Terra. A Divina Providência não nega essa possibilidade a ninguém, sequer àqueles que, sem culpa, ainda não chegaram ao conhecimento da mensagem do evangelho (LG 13-16).

A santidade é dom do Espírito Santo acolhido mediante a prática da caridade: o risco de não chegar à santidade só se verifica quando falta o amor (LG 42). O Vaticano II foi ainda mais audacioso, ao afirmar que a pertença à Igreja não é garantia de santidade. Alguém pode ser batizado, crismado, frequentador habitual de igrejas, “católico de carteirinha”, como se diz, mas, se “não persevera na caridade”, corre o risco de não cultivar a santidade (LG 14).

Perceberam a enormidade da tarefa à frente? Resgatar o verdadeiro significado e a verdadeira vivência da vocação universal à santidade. Embora nossos horizontes sejam ainda muito estreitos, é possível aprender essa tarefa com aqueles que prepararam, fizeram e viveram o Concílio Vaticano II. Essas pessoas acreditaram na possibilidade da universalidade da santidade. De um modo geral, tudo é chamado de Deus no meio do mundo: vocação à vida, vocação à fé, vocação à santidade. Cada um deve corresponder a uma divina vocação.

Seria possível ir além e perceber a santidade como uma “utopia” da vocação cristã? Vê-la de forma ampla, irrestrita, ecumênica, um modelo dinâmico de vida que englobe toda a humanidade, todas as religiões, todos os homens e mulheres de boa vontade? Somos convidados a retomar um sentido da santidade além daquele que nos é apresentado pelos santos que nos olham de nossos altares: temos de nos abrir para a universalidade da santidade.

Toda atitude que procura restringir o conceito, seja a ideia ou a experiência de santidade a um pequeno grupo, a apenas uma parte da Igreja, não é, certamente, inspirada pelo Evangelho. Quando o Senhor nos diz “Avancem para águas mais profundas” (Lc 5,4), é isso o que Ele espera de nós: que, pela nossa vida e pelo nosso jeito de ser, sejamos plantas novas nessa velha floresta humana, cheia de árvores carcomidas pelo ódio, tomadas até a raiz pelo desamor, árvores feridas que ferem, mas de cujo tronco ainda é possível extrair o óleo que unge e cura.

E, para nos ajudar no caminho da santidade, o Papa Francisco nos enviou Mons. Geraldo de Paula Souza, Missionário Redentorista, para ser o nosso Bispo Auxiliar. Ele vai ser ordenado Bispo no dia 20 de dezembro, às 9 horas, na Basílica Nacional de Aparecida. Somos convidados a participar e a rezar por ele, para que, como sucessor dos Apóstolos, nos conduza nos caminhos de Jesus, que nos levam para a santidade e a felicidade.

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